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Ariadna Kastri

Os clássicos, lidos a partir das mulheres que os sustentam

Os livros

A Odisseia que não te contaram

Uma viagem pelo poema de Homero com suas mulheres no centro

Arte de “A Odisseia que não te contaram”, de Ariadna Kastri
Capa de “A Odisseia que não te contaram”

A trilogia da guerra de Troia · Livro 1

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Cada afirmação, com seu canto e verso.

Como este livro trabalha

Fecha os olhos e escuta, porque essa história nasceu para ser ouvida.

Muito antes de existir livro, biblioteca ou prova de literatura, a Odisseia era som: um poeta de memória prodigiosa, chamado aedo, cantava esses versos numa festa, acompanhado de uma lira, diante de gente que comia, bebia e pedia bis.

A passagem continua no livro

E é assim que cada afirmação se confere:

Tem um detalhe no canto 10 da Odisseia que os resumos escolares pulam com uma elegância suspeita.

Acabou de ver a Odisseia no cinema? Isto é o que o filme também não lhe contou.

A Odisseia tem mais de vinte mulheres. Contaram para você a história do único homem.

Logo no primeiro canto do poema, uma mulher desce as escadas para pedir ao poeta que cante outra coisa. O filho dela — uns vinte anos — manda que suba de volta: vá para o tear e a roca; falar é assunto de homem. Ela obedece e chora até dormir. Essa cena quase nunca aparece nos resumos — e é a chave de tudo: a Odisseia não é só a história de um homem tentando voltar para casa. É também a história de todas as que esperam, servem, tecem, calam — e pagam a conta desse regresso.

A Odisseia que não te contaram volta ao texto real de Homero e devolve às suas mulheres o centro do palco. Penélope não é o prêmio que espera na última página: é a melhor jogadora do poema. Três anos segurando cem homens armados, enquanto esperava vinte, com as únicas armas que o mundo dela não confiscou — o tempo, a palavra e um tear. Quando Ulisses enganou o Ciclope, a literatura aplaudiu por três mil anos. Ela foi arquivada como "esposa fiel". O peso duplo não está só no poema: está no jeito como ele chegou até nós.

As Sereias, em Homero, não têm cauda de peixe nem cantam sobre amor: oferecem saber tudo — a ameaça original nunca foi a sedução, e sim mulheres que sabem mais que você e dizem isso em voz alta. Circe e Calipso são anfitriãs poderosas de quem o poema nunca cobra as contas que cobra das mortais. Euricleia, a ama comprada pelo preço de vinte bois, reconhece uma cicatriz e ganha uma mão na garganta. E as doze escravas do canto 22 são obrigadas a esfregar o sangue do salão antes de serem enforcadas juntas, "como tordos ou pombas presos na rede" — o episódio que as adaptações juvenis pulam há séculos, montado aqui como um processo completo: os fatos, a defesa, a acusação. O veredito é seu.

A pergunta que atravessa este livro não é se Ulisses era bom ou mau. É outra, mais afiada: quem paga cada final feliz? Na última página, você vai saber ler a conta — a deste poema e a de qualquer história, inclusive a sua.

Não precisa ter lido a Odisseia para começar. Precisa do contrário: a desconfiança de que te contaram só a metade.