Os livros
A Odisseia que não te contaram
Uma viagem pelo poema de Homero com suas mulheres no centro

A trilogia da guerra de Troia · Livro 1
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- Capa comumR$ 126,10104 páginas
- Capa duraR$ 177,6083 páginas
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Cada afirmação, com seu canto e verso.
Como este livro trabalha
Fecha os olhos e escuta, porque essa história nasceu para ser ouvida.
Muito antes de existir livro, biblioteca ou prova de literatura, a Odisseia era som: um poeta de memória prodigiosa, chamado aedo, cantava esses versos numa festa, acompanhado de uma lira, diante de gente que comia, bebia e pedia bis.
A passagem continua no livro
E é assim que cada afirmação se confere:
Tem um detalhe no canto 10 da Odisseia que os resumos escolares pulam com uma elegância suspeita.
Acabou de ver a Odisseia no cinema? Isto é o que o filme também não lhe contou.
A Odisseia tem mais de vinte mulheres. Contaram para você a história do único homem.
Logo no primeiro canto do poema, uma mulher desce as escadas para pedir ao poeta que cante outra coisa. O filho dela — uns vinte anos — manda que suba de volta: vá para o tear e a roca; falar é assunto de homem. Ela obedece e chora até dormir. Essa cena quase nunca aparece nos resumos — e é a chave de tudo: a Odisseia não é só a história de um homem tentando voltar para casa. É também a história de todas as que esperam, servem, tecem, calam — e pagam a conta desse regresso.
A Odisseia que não te contaram volta ao texto real de Homero e devolve às suas mulheres o centro do palco. Penélope não é o prêmio que espera na última página: é a melhor jogadora do poema. Três anos segurando cem homens armados, enquanto esperava vinte, com as únicas armas que o mundo dela não confiscou — o tempo, a palavra e um tear. Quando Ulisses enganou o Ciclope, a literatura aplaudiu por três mil anos. Ela foi arquivada como "esposa fiel". O peso duplo não está só no poema: está no jeito como ele chegou até nós.
As Sereias, em Homero, não têm cauda de peixe nem cantam sobre amor: oferecem saber tudo — a ameaça original nunca foi a sedução, e sim mulheres que sabem mais que você e dizem isso em voz alta. Circe e Calipso são anfitriãs poderosas de quem o poema nunca cobra as contas que cobra das mortais. Euricleia, a ama comprada pelo preço de vinte bois, reconhece uma cicatriz e ganha uma mão na garganta. E as doze escravas do canto 22 são obrigadas a esfregar o sangue do salão antes de serem enforcadas juntas, "como tordos ou pombas presos na rede" — o episódio que as adaptações juvenis pulam há séculos, montado aqui como um processo completo: os fatos, a defesa, a acusação. O veredito é seu.
A pergunta que atravessa este livro não é se Ulisses era bom ou mau. É outra, mais afiada: quem paga cada final feliz? Na última página, você vai saber ler a conta — a deste poema e a de qualquer história, inclusive a sua.
Não precisa ter lido a Odisseia para começar. Precisa do contrário: a desconfiança de que te contaram só a metade.



